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  Esse Buraco: os Anos Oitenta

 

Os anos oitenta foram um buraco. Cultura, ideológico, político. Uma ressaca fodida depois de mais de trinta anos de guerra fria assolando o mundo e vinte de ditadura militar cerceando a liberdade de um povo que, com raríssimas exceções, já parecia acostumado e conformado com o Estado policial que os militares haviam criado. Pra quem cresceu a partir do fim da utopia hippie e do surgimento da AIDS, a década de oitenta foi um porre que ainda não acabou. Foi preciso descobrir outras motivações, outras justificativas, outras coisas pelas quais lutar. E olha que não tinham sobrado muitas coisas. O que me lembro, hoje, olhando para trás, é a figura meio emblemática, meio ambígua do Cazuza. Um “pierrô retrocesso” como ele mesmo se definia. Gosto do Cazuza porque cresci ouvindo suas músicas e porque acho que, a despeito do possa dizer os críticos ou detratores de plantão, o Cazuza foi um cara que sintetizou muito bem, em suas letras, os despojos e o vazio que os anos oitenta legaram. Impossível não se reconhecer em um ou outro verso do cara. Principalmente quando se era um pré-adolescente esquisito e desajustado em relação à maioria de meus amigos, usando um tênis bamba ferrado, que odiava futebol e só pensava em vadiar o dia todo pelas ruas que iam de casa à biblioteca municipal. Isso já era início dos 90, mais ou menos com uns treze anos de idade, mas sacava muito bem quem era o Cazuza e já tinha uns discos do Barão Vermelho roubados dos primos mais velhos, além de umas fitas cassetes, que quase já nem tocam mais, quase 15 anos depois. Foi uma merda crescer nos anos oitenta. A literatura e a poesia acabaram compensando o vazio. Eu só não podia sacar que os noventa seriam ainda piores.

Tudo isso pra dizer que publiquei no jornal Tribuna Impressa uma resenha sobre o filme da Sandra Werneck e Walter Carvalho – Cazuza, o Tempo não Pára. Valeu a pena ver o filme. E quase não doeu relembrar a ressaca e o desbunde dos anos oitenta. Abaixo, segue um trecho do artigo. Quem quiser ler ele todo, é só acessar o link do jornal aí ao lado e procurar em “Colunistas”.

 

“No Brasil, com a abertura política e o fim do regime militar, a década de 80 deu lugar a um profundo e exasperado vazio político-ideológico. De repente, o inimigo público número um da liberdade e da democracia resolve largar o osso e devolver o país aos civis, saindo à francesa, com uma dignidade que, até hoje, incomoda aqueles que lutaram durante anos contra a opressão totalitária que o Estado policial exerceu sobre os cidadãos brasileiros. E é nesse contexto que surge o rock nacional, feito por jovens estranhos, filhos da classe média-alta, com roupas rasgadas, uma rebeldia tardia, quase inocente por não saber contra o que fazia frente, com um espírito desencantado e uma vontade de estar vivo que oscilava entre a alegria absoluta de uma vida dionisíaca, sem embargos ou restrições, e uma amarga melancolia diante dessa mesma vida, melancolia que não se justificava quando confrontada com a herança libertária que receberam passivamente. O “desbunde”, então, era o resultado natural de uma história marcada por revoltas e contestações que, de um momento a outro, cederam lugar ao conformismo cultural, político e social gerado pelo fim da ditadura militar.

Nesse sentido, gostei do filme de Sandra Werneck e Walter Carvalho, Cazuza, O Tempo Não Pára. Um filme moralmente perturbador sem ser estupidamente moralista, que mexe com a cabeça de toda uma geração que cresceu ouvindo Barão Vermelho, invejando Cazuza e pedindo, junto com ele, uma “ideologia pra viver”. É óbvio que os versos da música revelam um deboche cínico contra a ausência de sentidos que dominava o panorama político-cultural brasileiro. Todo mundo sabe que não há nada mais nocivo do que os grandes sistemas de pensamento ideológicos, porque escondem suas verdadeiras motivações, camuflam a história e se justificam por e em si mesmos. Mas esse deboche e esse cinismo foram as marcas distintivas do lirismo transgressor de Cazuza. E o filme capta magistralmente a “poesia” cínica, apaixonada, rebelde e inconformista do compositor, o último hedonista que conheci. Viveu suas crenças pessoais e suas idiossincrasias mais terríveis às últimas conseqüências, deixou uma música profundamente marcada por suas inquietações mais íntimas, por suas tristezas e alegrias, por sua existência libertária, que só queria extrair da vida os sentimentos reais, intensos, verdadeiros e desajustados que, muitas vezes, nos determinam. Cazuza chocou e confundiu a todos que conviveram com ele, que ouviam suas músicas e sabiam, conscientemente talvez, que, diante da realidade desfocada e desiludida, era preciso gritar, viver, sonhar e encontrar um veneno antimonotonia que pudesse salvar o mundo da pasmaceira e do desencanto em que foi precipitado. Bissexual, vitimado pela AIDS, tornou pública sua condição e cantou a experiência patética da doença: “O meu prazer\ agora é risco de vida.\ O meu sexo and drugs\ não tem nenhum rock and roll.\ Eu vou pagar/ a conta do analista\ pra nunca mais ter de saber quem eu sou”.

 

Acho que é isso.

 



 Escrito por Márcio Scheel às 00h49
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  TODAS AS COISAS DO MUNDO SÃO BELAS.

Cena do Filme Asas do Desejo

Escrevi esse poema há alguns anos já. Não sei gosto ou desgosto dele. Nós nunca sabemos, na verdade, se gostamos ou não daquilo que escrevemos, experimentamos, vivemos. Escrever é isso mesmo. Esse mistério, esse enigma que a gente tenta, às vezes inutilmente, reduzier às palavras. Estamos sujeitos à força e a intensidade de sentimentos, sensações, idéias e conceitos que não são facilmente reduzíveis às palavras. O desafio do poeta, do escritor, do intelectual, do artista, é romper esse cerco, superar esses limites. Esse poema tem uma história curiosa. É motivado por dois filmes distintos, que assisti já faz um tempão: o primeiro é de um holandês, acho que Wo Wandenberg e se chama Todas as Coisas São Belas - a história de uma professora, de seu marido bêbado e alheio, do aluno adolescente que ela seduz e das amarguras que os três váo vivendo. O outro filme é o Der Himmel Über Berlin (O Céu sobre Berlin) traduzido, do título em inglês Wings of Desire, como Asas do Desejo, do cineasta alemão Win Wenders. A história do anjo que resolve "cair" depois de descobrir uma trapezista de circo e se apaixonar por ela. Ambos os filmes têm propostas e motivações muito diferentes, mas mexeram muito com a minha cabeça. O poema acabou surgindo naturalmente, como uma espécie de síntese dos sentimentos perturbadores e da ironia desencantada que os filmes me revelaram. Não preciso dizer que o poema pactua com essa ironia. Fica, para mim, como um exercício de entendimento impossível.

Todas as Coisas do Mundo São Belas

Sorri, lê teus livros, ouve tuas músicas,

Que entre nós não há mistérios ou dúvidas

A serem desvendadas. Dança. Sorri.

Bebe o tom dourado e quente da tarde.

Que importa a vida, suas tantas verdades,

Quando, sei, concebe o sonho em ti?

Que importa a realidade se pode

Ler teus livros, ouvir tuas músicas,

Dançar, sorrir, beber a tarde, as dúvidas,

E ser feliz, e livre, e leve e clara,

Sem que nada te fira ou incomode?

E assim, como a mais órfã das estrelas,

Me ensina a volta ao bem e me revela,

No gosto azul de teu olhar, a certeza:

Todos os poemas são de tristeza.

Todas as coisas do mundo são belas.

       



 Escrito por Márcio Scheel às 17h23
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