| |
Ainda Restam Alguns Bárbaros
A Agência Reuters de notícias afirmou, quando da divulgação do filme Invasões Bárbaras, que se trava de uma crítica do diretor Denys Arcand às instituições canadenses, como o sistema de saúde, a realidade política, a mediocridade intelectual que parece imperar no Canadá e em boa parte dos paises ocidentais. Pura idiotice. Reduziu o filme a uma ínfima parte do que ele verdadeiramente significa e representa. Denys Arcand, ao contrário, disse em entrevista que se trata de um filme sobre a morte. Ele é o diretor, tem todo o direito de afirmar ou ilustrar qual o caráter primeiro de sua obra. A verdade é que Invasões Bárbaras é um filme muito mais inquietante do que seria qualquer panfletarismo tolo de esquerda. Um filme que extrai sua graça e seu poder de convencimento do total desencanto com que se volta para as pessoas e para o mundo. Muita gente não gosta. Vão dizer que é um filme "cabeça", na melhor herança do cinema de autor francês. Outra idiotice. O pano de fundo é o pensamento intelectual que dominou o mundo a partir dos anos 60, mas o que fica, depois de uma hora e meia de filme, é a forma sincera através da qual Denys Arcand resgata a idéia ou o idela de amizade, sua força e sua importância na formação do pensamento crítico, teórico, filosófico político e estético de toda uma geração. Só existimos, realmente, quando podemos partilhar com amigos possíveis, comuns - que vivenciaram conosco toda a realidade que a memória vai transformando numa espécie de afetividade intelecutal que nos justifica diante do mundo, dos outros indivíduos e das coisas, vividas ou sentidas apenas - as mesmas experiências e os mesmos sentimentos que nos marcaram e que, depois de alguns anos, passam a ser a essência de nós mesmos, do que somos, sabemos e conhecemos. Um filme sobre encontros e desencontros, enganos, fracassos e frustrações, mas também sobre a extrema necessidade de se partilhar, de deixar uma marca que seja, pessoal e intransferível, no peito indiferente e cardíaco da História. Abaixo, segue um artigo que pulbiquei no jornal Tribuna Impressa. A idéia era justamente desfazer o engano que a agência Reuters poderia ter causado. Não é um filme panfletário no sentido político-ideológico do texto. Ideiais políticos e ideológicos até que atravessam o filme, mas não é deles, com certeza, que Denys Arcand extrai a beleza desesperada de seu filme.
Escrito por Márcio Scheel às 00h42
[]
[envie esta mensagem]
|
|
| |
Esses Estranhos Bárbaros
Hannah Arendt, num ensaio sobre Lessing, o dramaturgo que criou o teatro nacional alemão, em Homens em Tempos Sombrios, afirma que “o mundo não é humano simplesmente por ser feito por seres humanos, e nem se torna humano simplesmente porque a voz humana nele ressoa, mas apenas quando se tornou objeto de discurso. Por mais afetados que sejamos pelas coisas do mundo, por mais profundamente que possam nos instigar e estimular, só se tornam humanas para nós quando podemos discuti-las com nossos companheiros. Tudo o que não possa se converter em objeto de discurso – o realmente sublime, o realmente horrível ou o misterioso – pode encontrar uma voz humana com a qual ressoe no mundo, mas não é exatamente humano. Humanizamos o que ocorre no mundo e em nós mesmos apenas ao falar disso, e no curso da fala aprendemos a ser humanos”. A citação é longa, mas determinante se quisermos entender o que faz do filme Invasões Bárbaras uma obra superior dentro da mediocridade subjacente ao cinema contemporâneo.
De fato, parece que o canadense Denys Arcand, autor e diretor do filme, conhece como poucos os movimentos simulados e dissimulados da alma humana. E valeu-se desse conhecimento para conceber um filme sincero e desconcertante, lírico sem ser excessivamente dramático, sentimental ou piegas. Na verdade, o cinismo, a mordacidade e a ironia que acompanham as personagens em seus desencantos mais cruéis não permitem que o filme pactue com qualquer sentimentalismo rasteiro. Ao contrário, o lirismo, presente em muitas passagens da história, em várias seqüências ou imagens isoladas, nos planos e contraplanos de uma câmera quase distraída, esse lirismo é de ordem filosófica, muito próximo do grande pensamento abstrato que marcou os últimos momentos do pensamento humanista ao longo de todo o século XX. Invasões Bárbaras revela os últimos dias de vida de Rémy, um professor universitário de esquerda, que está morrendo de câncer e que precisa resgatar sua história familiar, com a ex-esposa constantemente traída, com o filho capitalista, com a filha navegadora e com os velhos amigos de universidade e luta política. Rémy precisa justificar-se antes de morrer, porque nós somos marcados pelas tensões e pelos conflitos que se estabelecem entre a história, que é uma abstração acadêmica, coletiva, e a nossa existência individual, que se quer radicalmente singularizada, específica, quase concreta. A amizade, então, seria a última forma de dialética possível.
Denys Arcand conseguiu desvelar boa parte da história política do século XX nos diálogos que atravessam o filme. Fez com que seus personagens, partidos em dilemas, angústias e frustrações, se humanizassem na exata medida em que transformavam esses mesmos dilemas, angústias e frustrações - que marcaram toda uma geração de pensadores surgida depois da Segunda Guerra Mundial – em objeto do discurso. O diretor canadense aproximou, de uma vez, as duas idéias centrais defendidas por Hannah Arendt: a amizade como pressuposto básico para a compreensão do mundo, dos seres, das coisas e da história mesma; e o discurso como forma de compartilhar as experiências pessoais que nos determinam e que se transformam, com o tempo, no único modo verossímil de percepção da realidade. Ao invés da morte, Invasões Bárbaras é um filme sobre a vida e as limitações de tudo o que é humano.
Assim, entre a completa ruína do sistema de saúde canadense, integralizado pelo estado, a relação conturbada com o filho, a abnegação da ex-esposa, o cinismo e a mordacidade dos amigos, Rémy revê sua vida e suas conquistas, seu pensamento e seu fracasso, e compreende que a amizade é o único sentimento verdadeiramente gratuito que um homem pode oferecer a outro homem, confirmando a tese de Hannah Arendt de que as coisas só se humanizam radicalmente quando podem ser compartilhadas com o outro. Invasões Bárbaras não é um filme sobre a morte, sobre a decadência do sistema de saúde canadense, socializado a partir dos ideais políticos da social-democracia, ou sobre a falência das ideologias e da intelectualidade no século XX. Antes, é um balanço deste mesmo século, promovido pela visão irônico-niilista de um grupo de professores que se encontra para fazer da morte do amigo uma celebração da amizade como um espaço privilegiado de entendimento e compreensão, não só de nossa própria existência, mas de toda a história, da qual não somos mais do que sujeitos incidentais.
Escrito por Márcio Scheel às 00h30
[]
[envie esta mensagem]
|
|