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  Tulípio – Nosso Último e Verdadeiro Filósofo

 

O que pode acontecer quando um publicitário, conhecedor dos melhores (ou não) botecos paulistanos, e um desenhista de primeira linha, apreciador dos melhores (ou não) botecos paulistanos se encontram e resolvem unir, num trabalho em conjunto, essa paixão em comum? O que pode acontecer quando ambos têm um refinadíssimo senso de humor e uma extrema capacidade de observação cuidadosa e atenta desse mundo de absolutas surpresas que compõem a fauna dos bares, botecos e botequins freqüentados pelos sujeitos mais undergrounds, surreais e rock and rol que existe? A resposta é simples: um sábio de balcão, filósofo de copo, mesa e cadeira, sempre pronto às mais argutas boutades politicamente incorretas de que se têm notícias no universo das charges, dos quadrinhos e do cartoom brasileiro. O nome desse personagem é Tulípio. E seus criadores são Eduardo Rodrigues (argumentos) e Paulo Stocker (desenhos). Eles acabam de lançar Tulípio – Revista de Boteco: um conjunto com as melhores e mais infames tiradas desse personagem que, como bem lembrou Mário Bortolotto, surge para encontrar seu lugar junto com a Rê Bordosa, do mestre Angeli, e o Geraldão, do excelente Glauco Matoso.

 

Tulípio é um quarentão, com pouco cabelo, cavanhaque e bigode infalíveis, os olhos apertados de quem está sempre entre o maluco e o completamente chapado, que passa suas noites bebendo, sentado à mesa ou transitando pelos corredores indefectíveis dos botecos mais inacreditáveis. Entre uma e outra dose, ele encontra tempo para tecer comentários acerca da vida, da existência, dos dilemas pessoais, do sexo e das mulheres, embora ele sempre prefira, com razão, os dois últimos. Como um filósofo empírico, que faz da observação do mundo sua matéria-prima expressiva, Tulípio parece uma espécie de Minipo (personagem de Luciano de Samósata em seu Diálogo dos Mortos) redivivo: cínico e mordaz, ele não perdoa as almas mais desavisadas que resolvem partilhar de sua sabedoria corrosiva. Ele não leva a menor fé em nada, inclusive em si mesmo, e chega ao máximo do nonsense existencial em tiras como esta:



 Escrito por Márcio Scheel às 19h31
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Nada escapa ao fino cinismo crítico de Tulípio, um sujeito que nasceu para desafinar o coro dos contentes com seus comentários fora de propósito, com seu humor bêbado, com sua sabedoria etílica, que desacredita de tudo com a mesma naturalidade com que se pede outro chope. Um tipo de personagem que não acredita em beleza interior, mas que é um otimista nato:

 

 

 

Tulípio assume o discurso do loser com uma ironia de fazer inveja aos personagens mais ferrados de David Goodis ou de Boris Vian. Sabe que tudo o que tem, tudo o que pode salvá-lo desse mundo esvaziado de hoje é sua incoerência, sua autocrítica, seu atrevimento e sua perspicácia em fazer de uma realidade naufragada tema das tiradas mais geniais. Paulo Stocker e Eduardo Rodrigues procuram fazer do humor uma tábua de salvação, uma saída possível em meio a idiotia geral em que vivemos e afundamos diariamente. Assim como Tulípio, que acredita no poder redentor do uísque doze anos:

 

Feio, esquisito, com um charme alcoolizado e uma irresistível sagacidade, Tulípio não quer agradar a todo o mundo – talvez porque saiba que só os medíocres aprendem a difícil e inútil arte de agradar a todos – muito menos levar a sério essa parada indigesta que, alguns, chamam vida – os mais desavisados, principalmente. Ele só quer ir ficando ali, na dele, encostado ao balcão, sozinho na mesa, pedindo mais uma dose, atravancando o caminho, desiludindo o garçom, sacaneando as mulheres e fazendo a gente rir sem parar com suas sacadas sempre invejáveis, que é quando a gente imagina: “Por que é que eu não pensei nisso antes?”. Paulo Stocker encontrou os traços perfeitos para dar vida a esse personagem bebum, a essa figura etérea, com esse incorrigível ar nublado pelo álcool como uma manhã de garoa fina e renitente. Nos quadrinhos, Stocker faz com que os planos de fundo sejam sempre em branco-e-preto, contrastando com Tulípio e seu cavanhaque falhado, sua barba castanha, sua camisa xadrez que o acompanha de um lugar a outro, como uma de suas marcas registradas – a outra, como não poderia deixar de ser é o copo.



 Escrito por Márcio Scheel às 19h29
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Paulo Stocker concebeu, a partir das frases anotadas ou criadas com invejável graça por Eduardo Rodrigues, um personagem que não dá a mínima para códigos de conduta ou etiqueta, para a moral e os bons costumes, para essa ideologia falseada de extrema direita, fascista e imbecilizada, do politicamente correto, que já vem disfarçado em uma impostura cega de bom mocismo civilizado, decente, digno e supostamente inteligente. Tulípio só é cinicamente implacável porque jamais aceitaria ser levado à sério, porque jamais admitiria levar-se à sério:

 

 

Tulípio é machista, sexista, histriônico anti-romântico, safado, boêmio, perdido e desarranjado, errando de um boteco a outro, especialista em fazer de suas boutades “axiomas filosóficos” de primeira ordem:

 

 

Afinal, quem mais, além de um inveterado pensador de botequim, poderia assumir essa postura oratória, essa posição de sábio chinês para imprecar – na melhor paródia que já vi do verso clássico de Vinicius de Moraes – uma defesa das feias (lá do seu jeito, que fique claro, mas uma defesa) num mundo cada vez mais contaminado pelos ideais de uma estética empobrecida, porque reduz a beleza aos limites do corpo, essa fraude que afunda com o tempo, sem remédios. Paulo Stocker já era conhecido por seus desenhos mais absurdos, por seu traço irreverente, por sua forma singular de registrar um tema sempre e cada vez mais caro em nossos tempos: o sexo. É como se Stocker quisesse comprovar, por meio de seus desenhos, a tese de Freud segundo a qual biologia é destino:



 Escrito por Márcio Scheel às 19h25
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Raras vezes o desenho foi tão privilegiado em encontrar um representante digno dessa forma de expressão mais antiga do que a própria língua, através da qual os homens primitivos encontravam sua manifestação mais plena, ritualística, simbólica. Assim, Tulípio é o resultado de uma decantada obra plástica, de um cuidado com os traços, de uma tentativa de revigorar o desenho de humor no Brasil, fazendo com que ele alcance a posição de destaque que têm nos Estados Unidos ou na Europa, por exemplo, buscando a inspiração em outros mestres dessa arte, como Angeli, o mais cínico dos cartunistas brasileiros em ação. Como Cortazar escreveu, certa vez, a respeito de Mafalda, a grande personagem do desenhista argentino Quino, pode-se dizer, também, de Tulípio: Não importa o que eu pense de Tulípio, mas o que o Tulípio pensa de mim. Grande legado esse ilustre bebum!



 Escrito por Márcio Scheel às 19h23
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