| |
A Literatura Vital de Antonio Lobo Antunes

“A imagem da mulher à espera dele entre as mangueiras de Marimba pejadas de morcegos aguardando o crepúsculo apareceu-lhe numa guinada de saudade violentamente física como uma víscera que explode. Amo-te tanto que te não sei amar, amo tanto o teu corpo e o que em ti não é o teu corpo que não compreendo porque nos perdemos se a cada passo te encontro, se sempre ao beijar-te beijei mais do que a carne de que és feita, se o nosso casamento definhou de mocidade como outros de velhice, se depois de ti a minha solidão incha do teu cheiro, do entusiasmo dos teus projectos e do redondo das tuas nádegas, se sufoco da ternura de que não consigo falar, aqui neste momento, amor, me despeço e te chamo sabendo que não virás e desejando que venhas do mesmo modo que, como diz Molero, um cego espera os olhos que encomendou pelo correio.”
(Antonio Lobo Antunes – Memória de Elefante)
Memória de Elefante (1979) é o primeiro romance do escritor português Antônio Lobo Antunes. O enredo não chega a ser desafiador: um médico psiquiatra, que esteve na guerra de independência angolana, narra, ao longo de um dia, os desacertos de sua vida, as angústias e o desespero de se perceber, de repente, sozinho e abandonado, incapaz de dar a volta por cima, de escapar a sua própria história, de vencer a prostração a qual se entregou. Um casamento desfeito, o emprego num hospital psiquiátrico desalentador, os companheiros de trabalho, estreitos, tolos, indiferentes ao horror que vai crescendo dentro dele e que é só uma espécie de incompreensão trágica e desolada diante da existência inteira a qual se deu, são outros elementos fortemente presentes nessa história de renúncia e solidão. O narrador não consegue entender os motivos pelos quais seu casamento definhou, arruinado, se ainda ama a mulher que abandonou, se ainda precisa das filhas, da suposta paz encontrada na imagem das pequenas dormindo, no quarto ao lado do seu. O narrador não consegue compreender os motivos pelos quais tudo, absolutamente tudo em sua vida, acena para a dissolução, o desentendimento, a amargura.
Antonio Lobo Antunes nasceu em 1942, em Lisboa, na região de Benfica. Formou-se em medicina e especializou-se em psiquiatria. Sua experiência clínica começou em Angola, durante a guerra colonial de independência, onde serviu como médico. Lobo Antunes faz desse contato aterrador com a barbárie da guerra seu lugar literário por excelência, seu tema definitivo e a literatura mais desafiadora e original que se tem escrito nos últimos tempos. A solidão, o abandono, o sentimento de estar absoluta e completamente exilado onde quer que se esteja, o desamor, a falta mesma de amor, a guerra, o homem em conflito com os outros homens e consigo mesmo, buscando um sentido para a própria existência, lutando contra a derrota e a ruína iminente, perdido e alheio, marcado pelo doer das coisas, das sensações e idéias mais desajustadas, são os grandes leitmotivs de sua escritura, aliás, fragmentada, dispersa, memorialística, intransigente, polifônca, ao melhor estilo dos romances de Willian Faulkner, sua influência mais notável.
(continua)
Escrito por Márcio Scheel às 14h07
[]
[envie esta mensagem]
|
|
| |
Lobo Antunes flerta com a poesia, fratura a narrativa e esta acaba por dar vazão aos mais dolorosos dilemas que se colocam diante do olhar aterrado do homem contemporâneo. O fluxo de consciência alcança, em suas obras, o máximo do requinte e da precisão, revelando que somos apenas a memória estilhaçada e incompreensível de nós mesmos, doendo fora do lugar, ardendo feito um astro siderado, prestes a quedar-se completamente exausto por essa luta inglória que é a busca pelo entendimento exasperado de si. Memória de Elefante, seu primeiro romance, narrado em terceira pessoa, o que é raro, ainda não traz a multiplicidade de vozes que podemos encontrar em outras obras como Esplendor de Portugal (1997), por exemplo, ou Exortação aos Crocodilos (1999), mas já ensaia a tendência ao drama barroco de uma linguagem que se desliga do ímpeto narrativo em busca de uma voz francamente poiética, feita de imagens insólitas, de intertextualidades sutis ou declaradas, que vão de Dylan Thomas à Fitzgerald, de Hemingway à Kafka, da geração Beat ao jazz, de construções dramáticas e uma ironia que, ao tentar pôr a perder todo o sofrimento, apenas o afirma ainda mais angustiadamente.
Desesperada, a literatura de Antonio Lobo Antunes revela a danação das palavras e a perdição de nós mesmos. Na há saídas: entre a crueldade e a barbárie das recordações de guerra, e a tentativa amargurada de ternura, afeto e paixão pelo mundo que nos cerca, nada resta intacto, nada acena para um sentido que nos justifique, que nos caiba perfeitamente. Existir é fazer circular a memória, restituindo as mesmas dores que nos seguem de um lado a outro da vida; é gritar a devastação que nos toma, lentamente, e que nos precipita nos espaços insondáveis que constituem esse caminhar desesperançado e solitário para a morte. É, sem dúvida, o escritor mais importante da literatura contemporânea em língua portuguesa, ao menos daquela surgida a partir dos anos 70, juntamente com José Cardoso Pires, do instigante Balada da Praia dos Cães (1982). Antonio Lobo Antunes dá voz ao nosso incontornável sentimento de desterro. O único que, em uma vida inteira, nos vale de verdade. Não-pertencer, não-haver, estar sempre incompleto, como um móbile a que se perderam as partes. Estamos e estaremos sempre de mãos vazias, de memória desarvorada, feitos todos de desencontros e renúncias. Não há remédios. E Lobo Antunes sabe disso.
P.S: Não vou falar em José Saramago, nem fodendo. Perto da prosa dessacralizadora e angustiada de Lobo Antunes, Saramago é uma criança parva e inocente. Pura punhetagem para acadêmico desavisado ler e estudar. Uma pau-molice marxista-esquizóide, em suma. E não me venham reclamar, porque já perdi todas as ilusões possíveis.
Escrito por Márcio Scheel às 14h05
[]
[envie esta mensagem]
|
|