nemchoronemvelaparamim
  Salmo 91

DEUS, PROTETOR DOS JUSTOS

1. Deus,
eu moro sob a proteção do Altíssimo
e descanso à sombra do oponente.


2. Digam todos:
"O Senhor é meu refúgio e
meu escudo,
meu Deus em quem confio."


3. Porque o Senhor há de livrá-lo
do laço do caçador e das doenças
perigosas.


4. Com Suas penas o cobrirá
e o abrigará sob Suas asas.
Escudo, verdade e aliança são lealdade divina.


5. O filho que crê no Pai
não teme jamais,
nem à noite nem à luz do Sol,


6. as doenças que se propagam
ou os flagelos que arrasam o dia.


7. Podem cair mil a Seu lado,
e à direita, mais dez mil,
mesmo assim
nada O atinge.


8. Inclinará os Seus olhos em tudo,
e verá que o caminho contrário
não leva a nada.


9. Pois Ele é de fato
meu refúgio.
Sinto-me confortado
no Senhor Altíssimo.


10. Nada poderá me atingir.
Em minha casa não haverá doenças
nem desavenças.


11. Pois o Senhor deu ordens aos anjos
para que guardasse Seu filho por
onde quer que Ele caminhe.


12. Eles irão levá-lo,
segurando suas mãos,
para que não machuque
os pés nas pedras.


13. Andará por sobre os
contrários mais temíveis, como
o leão, o dragão...
E Seu filho pisará a salvo.


14. Porque quem está unido ao Senhor
estará salvo e protegido.


15. "Se invocado,
Eu ouvirei.
Serei Seu amigo nos momentos
mais difíceis,
Eu lhe darei a salvação e a glória.


16. Darei fartura, prolongando a vida.
Mostrarei minha salvação".



 Escrito por Márcio Scheel às 23h58
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  A Literatura Vital de Antonio Lobo Antunes

“A imagem da mulher à espera dele entre as mangueiras de Marimba pejadas de morcegos aguardando o crepúsculo apareceu-lhe numa guinada de saudade violentamente física como uma víscera que explode. Amo-te tanto que te não sei amar, amo tanto o teu corpo e o que em ti não é o teu corpo que não compreendo porque nos perdemos se a cada passo te encontro, se sempre ao beijar-te beijei mais do que a carne de que és feita, se o nosso casamento definhou de mocidade como outros de velhice, se depois de ti a minha solidão incha do teu cheiro, do entusiasmo dos teus projectos e do redondo das tuas nádegas, se sufoco da ternura de que não consigo falar, aqui neste momento, amor, me despeço e te chamo sabendo que não virás e desejando que venhas do mesmo modo que, como diz Molero, um cego espera os olhos que encomendou pelo correio.” 

(Antonio Lobo Antunes – Memória de Elefante)

 

Memória de Elefante (1979) é o primeiro romance do escritor português Antônio Lobo Antunes. O enredo não chega a ser desafiador: um médico psiquiatra, que esteve na guerra de independência angolana, narra, ao longo de um dia, os desacertos de sua vida, as angústias e o desespero de se perceber, de repente, sozinho e abandonado, incapaz de dar a volta por cima, de escapar a sua própria história, de vencer a prostração a qual se entregou. Um casamento desfeito, o emprego num hospital psiquiátrico desalentador, os companheiros de trabalho, estreitos, tolos, indiferentes ao horror que vai crescendo dentro dele e que é só uma espécie de incompreensão trágica e desolada diante da existência inteira a qual se deu, são outros elementos fortemente presentes nessa história de renúncia e solidão. O narrador não consegue entender os motivos pelos quais seu casamento definhou, arruinado, se ainda ama a mulher que abandonou, se ainda precisa das filhas, da suposta paz encontrada na imagem das pequenas dormindo, no quarto ao lado do seu. O narrador não consegue compreender os motivos pelos quais tudo, absolutamente tudo em sua vida, acena para a dissolução, o desentendimento, a amargura.

 

Antonio Lobo Antunes nasceu em 1942, em Lisboa, na região de Benfica. Formou-se em medicina e especializou-se em psiquiatria. Sua experiência clínica começou em Angola, durante a guerra colonial de independência, onde serviu como médico. Lobo Antunes faz desse contato aterrador com a barbárie da guerra seu lugar literário por excelência, seu tema definitivo e a literatura mais desafiadora e original que se tem escrito nos últimos tempos. A solidão, o abandono, o sentimento de estar absoluta e completamente exilado onde quer que se esteja, o desamor, a falta mesma de amor, a guerra, o homem em conflito com os outros homens e consigo mesmo, buscando um sentido para a própria existência, lutando contra a derrota e a ruína iminente, perdido e alheio, marcado pelo doer das coisas, das sensações e idéias mais desajustadas, são os grandes leitmotivs de sua escritura, aliás, fragmentada, dispersa, memorialística, intransigente, polifônca, ao melhor estilo dos romances de Willian Faulkner, sua influência mais notável.

(continua) 



 Escrito por Márcio Scheel às 14h07
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Lobo Antunes flerta com a poesia, fratura a narrativa e esta acaba por dar vazão aos mais dolorosos dilemas que se colocam diante do olhar aterrado do homem contemporâneo. O fluxo de consciência alcança, em suas obras, o máximo do requinte e da precisão, revelando que somos apenas a memória estilhaçada e incompreensível de nós mesmos, doendo fora do lugar, ardendo feito um astro siderado, prestes a quedar-se completamente exausto por essa luta inglória que é a busca pelo entendimento exasperado de si. Memória de Elefante, seu primeiro romance, narrado em terceira pessoa, o que é raro, ainda não traz a multiplicidade de vozes que podemos encontrar em outras obras como Esplendor de Portugal (1997), por exemplo, ou Exortação aos Crocodilos (1999), mas já ensaia a tendência ao drama barroco de uma linguagem que se desliga do ímpeto narrativo em busca de uma voz francamente poiética, feita de imagens insólitas, de intertextualidades sutis ou declaradas, que vão de Dylan Thomas à Fitzgerald, de Hemingway à Kafka, da geração Beat ao jazz, de construções dramáticas e uma ironia que, ao tentar pôr a perder todo o sofrimento, apenas o afirma ainda mais angustiadamente.

 

Desesperada, a literatura de Antonio Lobo Antunes revela a danação das palavras e a perdição de nós mesmos. Na há saídas: entre a crueldade e a barbárie das recordações de guerra, e a tentativa amargurada de ternura, afeto e paixão pelo mundo que nos cerca, nada resta intacto, nada acena para um sentido que nos justifique, que nos caiba perfeitamente. Existir é fazer circular a memória, restituindo as mesmas dores que nos seguem de um lado a outro da vida; é gritar a devastação que nos toma, lentamente, e que nos precipita nos espaços insondáveis que constituem esse caminhar desesperançado e solitário para a morte. É, sem dúvida, o escritor mais importante da literatura contemporânea em língua portuguesa, ao menos daquela surgida a partir dos anos 70, juntamente com José Cardoso Pires, do instigante Balada da Praia dos Cães (1982). Antonio Lobo Antunes dá voz ao nosso incontornável sentimento de desterro. O único que, em uma vida inteira, nos vale de verdade. Não-pertencer, não-haver, estar sempre incompleto, como um móbile a que se perderam as partes. Estamos e estaremos sempre de mãos vazias, de memória desarvorada, feitos todos de desencontros e renúncias. Não há remédios. E Lobo Antunes sabe disso.

 

P.S: Não vou falar em José Saramago, nem fodendo. Perto da prosa dessacralizadora e angustiada de Lobo Antunes, Saramago é uma criança parva e inocente. Pura punhetagem para acadêmico desavisado ler e estudar. Uma pau-molice marxista-esquizóide, em suma. E não me venham reclamar, porque já perdi todas as ilusões possíveis.                 



 Escrito por Márcio Scheel às 14h05
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  Tulípio – Nosso Último e Verdadeiro Filósofo

 

O que pode acontecer quando um publicitário, conhecedor dos melhores (ou não) botecos paulistanos, e um desenhista de primeira linha, apreciador dos melhores (ou não) botecos paulistanos se encontram e resolvem unir, num trabalho em conjunto, essa paixão em comum? O que pode acontecer quando ambos têm um refinadíssimo senso de humor e uma extrema capacidade de observação cuidadosa e atenta desse mundo de absolutas surpresas que compõem a fauna dos bares, botecos e botequins freqüentados pelos sujeitos mais undergrounds, surreais e rock and rol que existe? A resposta é simples: um sábio de balcão, filósofo de copo, mesa e cadeira, sempre pronto às mais argutas boutades politicamente incorretas de que se têm notícias no universo das charges, dos quadrinhos e do cartoom brasileiro. O nome desse personagem é Tulípio. E seus criadores são Eduardo Rodrigues (argumentos) e Paulo Stocker (desenhos). Eles acabam de lançar Tulípio – Revista de Boteco: um conjunto com as melhores e mais infames tiradas desse personagem que, como bem lembrou Mário Bortolotto, surge para encontrar seu lugar junto com a Rê Bordosa, do mestre Angeli, e o Geraldão, do excelente Glauco Matoso.

 

Tulípio é um quarentão, com pouco cabelo, cavanhaque e bigode infalíveis, os olhos apertados de quem está sempre entre o maluco e o completamente chapado, que passa suas noites bebendo, sentado à mesa ou transitando pelos corredores indefectíveis dos botecos mais inacreditáveis. Entre uma e outra dose, ele encontra tempo para tecer comentários acerca da vida, da existência, dos dilemas pessoais, do sexo e das mulheres, embora ele sempre prefira, com razão, os dois últimos. Como um filósofo empírico, que faz da observação do mundo sua matéria-prima expressiva, Tulípio parece uma espécie de Minipo (personagem de Luciano de Samósata em seu Diálogo dos Mortos) redivivo: cínico e mordaz, ele não perdoa as almas mais desavisadas que resolvem partilhar de sua sabedoria corrosiva. Ele não leva a menor fé em nada, inclusive em si mesmo, e chega ao máximo do nonsense existencial em tiras como esta:



 Escrito por Márcio Scheel às 19h31
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Nada escapa ao fino cinismo crítico de Tulípio, um sujeito que nasceu para desafinar o coro dos contentes com seus comentários fora de propósito, com seu humor bêbado, com sua sabedoria etílica, que desacredita de tudo com a mesma naturalidade com que se pede outro chope. Um tipo de personagem que não acredita em beleza interior, mas que é um otimista nato:

 

 

 

Tulípio assume o discurso do loser com uma ironia de fazer inveja aos personagens mais ferrados de David Goodis ou de Boris Vian. Sabe que tudo o que tem, tudo o que pode salvá-lo desse mundo esvaziado de hoje é sua incoerência, sua autocrítica, seu atrevimento e sua perspicácia em fazer de uma realidade naufragada tema das tiradas mais geniais. Paulo Stocker e Eduardo Rodrigues procuram fazer do humor uma tábua de salvação, uma saída possível em meio a idiotia geral em que vivemos e afundamos diariamente. Assim como Tulípio, que acredita no poder redentor do uísque doze anos:

 

Feio, esquisito, com um charme alcoolizado e uma irresistível sagacidade, Tulípio não quer agradar a todo o mundo – talvez porque saiba que só os medíocres aprendem a difícil e inútil arte de agradar a todos – muito menos levar a sério essa parada indigesta que, alguns, chamam vida – os mais desavisados, principalmente. Ele só quer ir ficando ali, na dele, encostado ao balcão, sozinho na mesa, pedindo mais uma dose, atravancando o caminho, desiludindo o garçom, sacaneando as mulheres e fazendo a gente rir sem parar com suas sacadas sempre invejáveis, que é quando a gente imagina: “Por que é que eu não pensei nisso antes?”. Paulo Stocker encontrou os traços perfeitos para dar vida a esse personagem bebum, a essa figura etérea, com esse incorrigível ar nublado pelo álcool como uma manhã de garoa fina e renitente. Nos quadrinhos, Stocker faz com que os planos de fundo sejam sempre em branco-e-preto, contrastando com Tulípio e seu cavanhaque falhado, sua barba castanha, sua camisa xadrez que o acompanha de um lugar a outro, como uma de suas marcas registradas – a outra, como não poderia deixar de ser é o copo.



 Escrito por Márcio Scheel às 19h29
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Paulo Stocker concebeu, a partir das frases anotadas ou criadas com invejável graça por Eduardo Rodrigues, um personagem que não dá a mínima para códigos de conduta ou etiqueta, para a moral e os bons costumes, para essa ideologia falseada de extrema direita, fascista e imbecilizada, do politicamente correto, que já vem disfarçado em uma impostura cega de bom mocismo civilizado, decente, digno e supostamente inteligente. Tulípio só é cinicamente implacável porque jamais aceitaria ser levado à sério, porque jamais admitiria levar-se à sério:

 

 

Tulípio é machista, sexista, histriônico anti-romântico, safado, boêmio, perdido e desarranjado, errando de um boteco a outro, especialista em fazer de suas boutades “axiomas filosóficos” de primeira ordem:

 

 

Afinal, quem mais, além de um inveterado pensador de botequim, poderia assumir essa postura oratória, essa posição de sábio chinês para imprecar – na melhor paródia que já vi do verso clássico de Vinicius de Moraes – uma defesa das feias (lá do seu jeito, que fique claro, mas uma defesa) num mundo cada vez mais contaminado pelos ideais de uma estética empobrecida, porque reduz a beleza aos limites do corpo, essa fraude que afunda com o tempo, sem remédios. Paulo Stocker já era conhecido por seus desenhos mais absurdos, por seu traço irreverente, por sua forma singular de registrar um tema sempre e cada vez mais caro em nossos tempos: o sexo. É como se Stocker quisesse comprovar, por meio de seus desenhos, a tese de Freud segundo a qual biologia é destino:



 Escrito por Márcio Scheel às 19h25
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Raras vezes o desenho foi tão privilegiado em encontrar um representante digno dessa forma de expressão mais antiga do que a própria língua, através da qual os homens primitivos encontravam sua manifestação mais plena, ritualística, simbólica. Assim, Tulípio é o resultado de uma decantada obra plástica, de um cuidado com os traços, de uma tentativa de revigorar o desenho de humor no Brasil, fazendo com que ele alcance a posição de destaque que têm nos Estados Unidos ou na Europa, por exemplo, buscando a inspiração em outros mestres dessa arte, como Angeli, o mais cínico dos cartunistas brasileiros em ação. Como Cortazar escreveu, certa vez, a respeito de Mafalda, a grande personagem do desenhista argentino Quino, pode-se dizer, também, de Tulípio: Não importa o que eu pense de Tulípio, mas o que o Tulípio pensa de mim. Grande legado esse ilustre bebum!



 Escrito por Márcio Scheel às 19h23
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  Nova Música Brasileira

Jay Vaquer Jay Vaquer foi a dica de hoje de um amigo. Disse para eu ouvir "Cotidiano de Um Casal Feliz". Não tinha nada para fazer e fui conferir a biografia do cara. Podem dizer o que quiser, mas todo artista que mereça esse nome carece de biografia. Pessoa tinha razão: apenas os gênios não precisam de briografia. O cara é filho de Jay Vaquer, o guitarrista americano que foi pareceiro do Raul Seixas durante um bom tempo (o Eduardo Coleone é a maior autoridade em Raul que conheço, logo, se quiserem mais informações, segue o e-mail do cara: eduardocoleone@gmail.com; ele tem a discografia oficial completa, e os discos adicionais também. Vinis raríssimos e todo a sorte de informações sobre o ilustre baiano roqueiro), e da Jane Duboc (ok, está perdoado, ninguém é perfeito). Ele já gravou três discos: Nem Tão São (2000), Vendo a Mim Mesmo (2004) e Você Não Me Conhece (2005). Misturando pop e rock com rigor e cuidado, ele cria melodias que destoam da mediocridade geral que se transformou na regra primeira do pop nacional nos últimos anos. Entre o cru e o inventivo, Jay Vaquer cria melodias inconfundíveis, que alternam o peso de grandes levadas na guitarra com a leveza de texturas musicais mais sutis, como na canção Pode Agradecer, que vai de uma estrutura vocal sampleada, com um instrumental de fundo levissímo em contraste com o refrão, pesado e denso até, alternando com a estranheza lírica da letra: Sufoquei, não deixei você sair sem mim/ Vigiei só para garantir,/ Infernizei, controlei cada segundo/ Liguei só pra verificar/ Te cerquei, coloquei escuta,/ grampeei o telefone/ Afastei amigos/ Ameacei violência apaguei o seu passado/ Odiei não estar lá - sussurado, quase inaudível; e um refrão que seria óbvio - Mas amei você...amei você/ Mas amei você...yeah, yeah/ Mas amei você...amei você/ Mas amei você...pode agradecer -  se não fosse a alternância brusca para um registro musical mais violento e seco, pesado e irônico. Aliás, no que diz respeito às composições, Jay Vaquer alterna entre uma ironia sardônica, mordaz, cruel - como cantor de uma certa paisagem classe-média, urbana e mascarada que configura nossa contemporaneidade - e uma tendência à introspecção, feita de um lirismo difícil, que não se dá facilmente: Um flash, sem eira nem beira/ Não diga besteira/ É bom você saber/ Merece, respeito é bom e eu gosto/ Aposto que seu gosto é duvidoso// E é tão claro que o que foi já não é mais vantagem/ Vai pela sombra e o que sobra é a, a miragem/ E é tão fácil separar o que foi e o que não foi bobagem/ Vai pela sombra e o que sobra é miragem. Nada do garoto tentando compor canções cheias de estilo, pretensiosas e vazias. Ele só diz o que quer e faz música, que é o que gosta. Vendeu o carro para gravar um clipe. Suas músicas não tocam no rádio, o que é natural, mas ele anda por aí, dando uma nova voz à música brasileira, refazendo os caminhos do pop-rock, esse eterno desgastado. Às vezes, concedo, algumas canções serviriam como trilha sonora da Malhação (e uma delas faz mesmo parte dessa novelinha ridícula - fazer o quê?) o que, por si só, acredito, também não desabonam o talento do cara, que pode ir longe, caso não sonhe com discos de outro, platina, diamente, rubi ou o caralho a quatro. Teria de vender sua alma ao diabo - e isso já é meio caminho para um total e absoluto fracasso. Vender é participar do Domingo Legal ou do Domingão do Faustão, é fazer concessões que podem destruir uma carreira promissora. De qualque forma, se ele só tivesse feito Cotidiano de Um Casal Feliz - cuja referência parodística está lá no Cotidiano, do Chico Buarque, em Valsinha, do mesmo Chico e em Cotidiano Nº 2, do Vinicius e Toquinho - ela já mereceira um voto de confiança:

Cotidiano de Um Casal Feliz

Jay Vaquer

Composição: Jay Vaquer

Alguém sabe dizer o que é normal?
Pode parecer tão natural(2x)

Ele manda em tudo, em todos
curte seu poder
E deixa a esposa em casa
pra brincar no treco
de qualquer traveco
em troca de prazer
vai saber porque...ieiê
E a esposa anda malhada
fez lipoescultura
e a falta de cultura
nunca foi problema
ela tem dinheiro
pra dar e vender
lê Paulo Coelho e seicho-no-ie
vai saber porque...iê

E eles têm escravos
disfarçados de assalariados
diariamente humilhados
e levantam cedo, se arrumam apressados
têm hora marcada pra falar com Deus

Alguém sabe dizer o que é normal?
Pode parecer tão natural (2x)

Ele guarda na HD
fotos de crianças nuas, pra tirar um lazer
Curte ver aquilo quando fica só
Ela conta os passos que dá no trajeto
entre a terapia e a boca do pó

E até pensa em adotar alguma criatura,
pode ser uma criança ou um labrador
Só depende da raça, depende é da cor
que pintar primeiro..
Ele faz como ninguém a cara de quem não sabe mentir
pode admitir, pra ocupar o vazio da relação
mas com uma condição:
não quer dar banho,
nem limpar merda o dia inteiro

Eles foram ver o show da Daiana Krall
que alguém falou que era genial
gritaram "uhuu" do camarote
enchendo a cara de Scotch

E eles têm escravos
disfarçados de assalariados
diariamente humilhados
e levantam cedo, se arrumam apressados
têm hora marcada pra falar com Deeeeuss!ououôô

Alguém sabe dizer o que é normal?
Pode parecer tão natural (2x)

Registro de uma realidade cada vez mais verdadeira e asfixiante, descrição virulenta de uma classe-média vazia e obtusa. Quando ouvi a música (prestando atenção na letra, que sempre me chega primeiro que a melodia), não pude evitar um sorriso comparativo: qualquer semelhança com o primoroso conto Basta um Verniz Para Ser Feliz  (In: O Herói Devolvido) de Marcelo Mirisola, não deve ser mera coincidência. Esse é o endereço do cara: http://www.jayvaquer.com.br/. E dá para ouvir algumas canções aqui: http://http://www.myspace.com/jayvaquer.  



 Escrito por Márcio Scheel às 01h42
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Esse cara é o James Blunt , um cantor britânico. Não conheço muito a música do cara, com ressalva à You're Beautiful, que, me parece, toca incessantemente nas rádios. Não sei, não ouço rádio. Raramente. Porque acredito no Marcelo Montengro e em seus poemas, ainda mais quando ele fala em uma "música linda que nunca toca no rádio". É verdade, essas músicas nunca estão lá quando as procuramos. Mas leio uma entrevista da figura aí e achei bacana, pela sinceridade, e pela forma como se relaciona com a música. Não tem nada do imbecil que, de repente, se fez astro da música popular e se acha no direito de fazer afirmações absolutas, profundas e nunca passíveis de serem levadas a sério. Ele fala, só isso. Segue um trecho da entrevista do cara para o St. Petesburg Times. O jornal não fez uma pergunta inteligente ou relevante, mas o cara se saiu bem:

 

SPT: O senhor participou de programas de televisão americanos em sua estadia aqui?

Blunt:
Não, eu nem assisto televisão. Estamos em um ônibus em turnê no momento, então não sobra muito tempo para televisão.

SPT: Certo. Como o senhor passa o tempo, além de dar entrevistas?

Blunt:
De fato, genuinamente, passo meu tempo fazendo isso. Dou entrevistas, visito uma rádio, faço a passagem de som, um show, encontros e depois às 23h30 eu fico bêbado. (Grifo meu.)

SPT: O senhor fica bêbado?

Blunt:
Sim. Sou britânico. Somos famosos por isso.

 

Um amigo querido voltou da Itália recentemente - Flavinho Catalano, que tem aprendido a tolerar os tolos de cara alegre, como São Paulo, o Apóstolo - e me contou uma história engreçada. Ligou em uma rádio local e estava tocando a música de James Blunt, "You're Beautiful". Ele ouviu a música inteira e, no final, o locutor italiano fuzilou: "Questa musica è particularmente irritante" (anexem aí o infalível sotaque italiano do Bexiga). Definidor. Mas a música, no fim das contas, tem de nos afetar de alguma forma.



 Escrito por Márcio Scheel às 13h16
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  Da Arte de se Iludir

Eu não acredito em política. Assim como Papai-Noel, Coelhinho da Páscoa e as Armas de Destruição em Massa Iraquianas, a política não é crível. Exige um esforço mental e um poder de racionalização inacreditável para aceitarmos o fato de que, em política – essa que se pratica diariamente no Congresso Nacional e adjacências, pelos nossos mais dignos e decentes políticos – a verdade jamais é algo empiricamente comprovável. Foi Aristóteles quem formulou o axioma filosófico - repetido à exaustão até pelos mais desavisados dos vereadores interioranos - de que o homem é um animal político.  Desde os gregos, acreditamos sinceramente nisso. Mas com os latinos é que passamos a confundir tudo, para nosso azar e infelicidade. Muito simples: para o filósofo grego, o homem era um animal político porque tinha de se adaptar, como cidadão, à vida na Polis, tinha de tomar parte nos acontecimentos gerais, que atingiam diretamente todos aqueles que compunham o universo social das Cidades-Estado gregas, ou seja, o ser um animal político equivalia a ser capaz de estabelecer relações mínimas de convívio, partilhando experiências e agindo diretamente para a manutenção ou transformação da realidade imediata, da natureza, da physis.

O homem, como animal político, deveria ter consciência de que suas atitudes tinham reflexo imediato no bem estar ou no prejuízo ético, moral, social ou econômico de outros cidadãos da Polis. Ok, admito que, pela perspectiva aristotélica, ser político era um ônus enorme que se calcava ao cidadão, algo mais ou menos como o protestantismo, numa perspectiva religiosa, afinal, como controlar as paixões e se manter digno, reto, coerente com seus princípios e, ainda assim, preocupado em cumprir suas obrigações para manter a ordem e o bem-estar público? Dificílimo, senão impossível. Em geral, estamos condenados ao nosso pobre individualismo. O problema é que foi com os latinos que a idéia de homem como animal político acabou por se confundir, única e exclusivamente, com a figura daquele que, de uma forma ou de outra, representa o poder constituído pelo Estado, com aquele que legisla, governa, controla, comanda. Não é preciso dizer que foi esta acepção da palavra - de todas, sem sombra de dúvida, a pior - que a história acabou por nos legar. E, agora, ficamos com esse pobre modelo democrático que tem como fundamento a idéia de representação. Elegemos, nesse teatro armado a cada quatro anos, aqueles que supostamente atenderão nossos desejos e necessidades primeiras enquanto... cidadãos. Meu Deus, quem ainda é capaz de acreditar em algo do tipo. O sistema representativo democrático, concedo, não é a melhor forma de exercício político, mas, infelizmente, é o que nos resta. Agora, daí a acreditar que vivemos no melhor dos mundos possíveis, são outros quinhentos. Acreditar que elegemos aqueles que nos representam e que estes, por sua vez, correspondem, ainda que infimamente, a nossas perspectivas, é quase um sandice. Eu sempre preferi a liberdade à democracia, isso porque o sistema representativo criou um abismo entre o homem político aristotélico, conscientemente cidadão, indelevelmente ligado à Polis e aos destinos políticos desta pela práxis, a ação, da qual não podia se eximir, e o homem público latino, nossa herança redutora e reducionista. O sistema representativo faz com que o cidadão eleja o seu candidato – o candidato, a persona pública, o sujeito, o nome, o símbolo, e nunca o partido, as propostas, as tendências e as plataformas políticas apresentadas como projetos de campanha – e deposite sobre ele a responsabilidade última pelo nosso destino sócio-político, eximindo-se da responsabilidade de ação. É mais simples e fácil assim, porque, afinal, o próprio cidadão cria as condições para depositar a culpa de seus equívocos políticos no Outro, essa abstração. A idéia de sistema representativo criou uma forma aberrativa de alienação política: de um lado, o jogo teatral do sujeito que, apoiado numa retórica vazia e numa imagem forjada a partir dos pressupostos da publicidade e da propaganda, se vende como salvaguarda e alternativa final para uma crise política sempre crescente e sempre sem precedentes; de outro lado, a transferência da responsabilidade, por parte do cidadão, sobre o exercício político.  

Assim, ao longo dos anos, o ideal de sistema democrático reduziu a práxis política ao mero jogo de fundo teatral, retórico, ilusionado. Não há mais o político engajé, o militante real, aquele sujeito que se entregava, absoluta e apaixonadamente, a uma causa, que acreditava que seu gesto era uma maneira de levar os demais indivíduos a um amelhoramento político e social. Hoje, temos o circo de horrores armado diariamente no Congresso Nacional. Assim como temos cidadãos cada vez mais desligados da ação pública, alheios, indiferentes aos resultados possíveis que suas escolhas pessoais podem acarretar. Elegemos um presidente que, com o perdão dos inocentes que ficaram em casa e que ainda acreditam nas boas intenções do governo Lula, se mostrou muito simpático, mas incompetente. Um presidente que emperrou a máquina administrativa, que demitiu funcionário de carreira para preencher as vagas com uma infinidade de cargos comicionados, oferecidos em confiança, como uma troca fisiológica entre o militante que trabalha nas eleições e ajuda a eleger a canaille, e a própria canaille que chega ao poder. Elegemos um presidente que ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores, que teve mesmo um papel decisivo na história do movimento sindical brasileiro durante mais de vinte anos, mas que faz política, no pior sentido do termo, em ano eleitoral, aprovando um aumento de R$ 50,00 para o salário mínimo, depois de afirmar, durante quatro anos, a inviabilidade de um reajuste salarial nessas proporções. De repente, isso não só é possível como é aplicado, sem nenhuma discussão de ordem econômica sobre o quanto tal reajuste pode onerar os cofres públicos e a estabilidade financeira, como é hábito quando tentam justificar a impossibilidade de um aumento digno do salário mínimo. Elegemos um presidente que se orgulhava em afirmar que seu partido, formado por homens do povo e intelectuais pequeno-burgueses, era o último bastião da ética política nacional, e fez com que o partido operasse mesmo como uma patrulha ideológica, impedindo ou atravancando, muitas vezes, as discussões democráticas propostas por outros partidos que, concedo, raramente propõe discussões, já que preferem a linha do ataque sistemático, da lavação de roupa suja, das brigas e auto-afirmações pessoais. Lula foi a última esperança política de um país que já não suportaria mais quatro anos sendo governado por um partido social-democrático que era muito parecido com o François Miterrand, na França, um socialista de discursos, palanques e inaugurações. É possível, e aqui me permito uma grande ingenuidade, que, politicamente, Lula fosse muito bem intencionado, ou que tivesse um ideal de centro-esquerda verdadeiro, e não o pastiche neoliberal que vem praticando desde que tomou posse, mas que se permitiu assessorar pelo que havia de pior e mais nefasto na política nacional.



 Escrito por Márcio Scheel às 18h50
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Começou nomeando José Dirceu para Ministro-Chefe da Casa Civil: Mon Dieu, qualquer adolescente de cursinho, com um mínimo de formação e informação, sabia que José Dirceu é um radical stalinista, mascarado em discursos pseudo-democráticos, com uma ideologia tão franqueada e cega que se permitia levar dos brados democráticos ao punho cerrado do autoritarismo mais gritante com a velocidade furiosa de uma F-550 Maranello; um homem que se transformou na iminência parda de um governo que poderia ter sido e que não foi, ou foi pela metade, abortado e sabotado de dentro, o que é pior. Na verdade, o presidente eleito não era um homem - era o símbolo de uma renovação política sempre ensaiada e nunca levada a efeito no Brasil. Depositário de todas as crenças de salvaguarda econômica e de resgate da dignidade social de um povo que, como em poucos momentos de sua história, vivia tão profundamente o que Nelson Rodrigues diagnosticara como "nosso complexo de vira-latas", Lula não traiu seus princípios, mas, sim, implodiu as últimas esperanças dessa utopia que, alguns, ainda insistem em chamar de Nação. Ele não decepcionou as elites - o que não seria nada, convenhamos, já que os destinos do país sempre estiveram nas mãos da elite, e um pequeno prejuízo nunca foi tão significativo para as cinco ou seus famílias que constituem essa mesma elite -, ao contrário, ele destruiu o sonho de um Brasil para milhões de brasileiros que sequer sabem precisar há quanto tempo vivem à margem das condições elementares, básicas mesmo, de subsistência: educação, saúde, trabalho, alimentação e cultura, para ficar com os exemplos essenciais. Lula cercou-se de uma corja suspeitabilíssima de ministros, assessores ou secretários que fizeram - em seu nome ou não, pouco importa agora - o jogo sujo da manutenção política do poder: o vale-tudo do fisiologismo, da negociata e da falcatrua. A diferença é que conseguiu, como poucos, desacreditar profundamente a verdade. Olhando para trás, hoje, quase nos convencemos de que os grandes escândalos políticos nos quais o PT se viu envolvido nos últimos dois anos, ao menos, jamais existiram. Isso pelo simples fato de que Lula ignorou, sistematicamente, as denúncias de fraude e corrupção, evitando o pronunciamento público, o reconhecimento de parte da culpa pelo modo como a situação se desenvolveu, fingindo que não havia nada de errado no paroxismo do jogo fisiológico que seus subordinados diretos construíram. Nesse sentido, Lula também não difere em nada de FHC, nossa majestade sociológica, que também fez do fisiologismo e das alianças espúrias a forma mais grotesca de manutenção do poder.  



 Escrito por Márcio Scheel às 18h49
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Sob todos os aspectos, e não unicamente do ponto de vista econômico, o governo Lula representa não o povo, mas a continuidade de uma ideologia política profundamente marcada pelo paternalismo e pelo populismo mais rasteiro, pelo assistencialismo barato e inverificável do Bolsa-Escola, do Bolsa-Família, do Vale-Gás, do Fome-Zero, medidas paliativas que não atingem um terço da população miserável que vai afundando numa velocidade assustadora nas maiores esquinas e nos melhores viadutos das grandes ou pequenas cidades perdidas desse país. O último bastião da moral política, no Brasil,  evanesce como uma sombra, talvez porque, enquanto projeto político-ideológico, tivesse a solidez das coisas que, segundo Marx, se desmancham no ar. Eu quis acreditar no governo Lula. Eu quis dar um voto de confiança ao torneiro mecânico sem instrução, ao líder sindical, ao nordestino feio e pobre que chegou à presidência do maior e mais importante país da América Latina. Eu quis, tolamente, como Tertuliano, o papa convertido, crer no governo Lula apenas porque parecia absurdo aquele homem vencer o preconceito da mentalidade oligárquica e esquizofrênica de nossa elite econômica e de nossa classe-média burra, como o fez chegando à presidência, mas sinto que ele me traiu, porque jamais pensei que a mendacidade, a desfaçatez e o absurdo de nossos pobres animais políticos pudesse ir tão longe. Me enganei, o que só comprova minha tese de que a burrice, como o sol, também é para todos. O consolo é que posso dividir esse engano com os outros sessenta milhões de brasileiros que elegeram como presidente o símbolo de uma revolução que, novamente, não veio. Ou veio pela metade, aos encontrões, como é típico em nossa história política. Afinal, para o governo Lula, nunca houve compra de votos, nunca houve caixa-dois de campanha, nunca houve o envolvimento direto de ministros e parlamentares ligado à bancada governista nos esquemas de desvio e repasse de dinheiro, administrado por Marcos Valério, mas gerenciado pelos donos do poder, quase todos livres de seus processos de cassação, quase todos certos de que a impunidade ainda é o maior valor ético e moral vigente em nosso país. O que mais decepciona, na verdade, é saber que, um dia, Lula já esteve mais perto do animal político aristotélico do que do político animal latino-americano. Ideologicamente, no Brasil, tem triunfado, a larga, a impostura e o mau-caratismo e, talvez por isso, como cidadão, o brasileiro nunca foi tão cínico e desiludido quanto nos últimos anos. Tivemos ótimos modelos. Por isso toda a práxis revolucionária, hoje, é uma ilusão a qual nos damos com uma quase bobeira de esperança - a última que morre, embora morra mesmo - certos de que, a arte de se iludir, em política, é a mesma de caminhar sozinho no deserto e se afogar em areia porque já não se resiste à miragem de tantos e fraudados oásis. Foi Sócrates, o filósofo, quem afirmou que se o desonesto soubesse as vantagens de ser honesto, seria honesto ao menos por desonestidade. Falou o mestre! Mas alguém ainda ouve os velhos mestres?    



 Escrito por Márcio Scheel às 18h49
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  Carta Aberta A Um Amigo Ausente

Caro Fernando,

 

Eu devia ter treze ou quatorze anos quando li, pela primeira vez, o romance O Encontro Marcado. Nessa época, eu já era um leitor contumaz de poesia: Dante, Rimbaud, Verlaine, Baudelaire, Maiakovski, Garcia Lorca, Pablo Neruda, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade – a biblioteca pública de minha cidade sempre foi bastante solicita quanto a minha feroz e caótica urgência poética. Mas, se comparado à poesia, o romance me parecia um universo desolado, uma espécie de mar indiferente e interminável, alheio a toda surpresa, a qualquer encantamento. Então, descubro O Encontro Marcado, leio-o todo em pouco menos de dois dias, e vivo meu primeiro deslumbre literário. Impossível, para qualquer um que sinta verdadeiramente a literatura, não se reconhecer na história de Eduardo Marciano e seu único grande desejo: tornar-se um escritor. Pela primeira vez, me reconhecia absolutamente em uma voz que não era, que sabia, exasperado, não poderia ser minha. Faz mais de dez anos e, agora, de repente, sou obrigado a aceitar que tua voz se calou.

            Depois desse primeiro encontro, viriam outros: O Grande Mentecapto, O Menino no Espelho, as crônicas, os contos de A Cidade Vazia, de O Homem Nu. Viria a descoberta de um mundo secreto, que a tua voz desvelava quase que como um sopro perdido de sutileza e ternura, quase que com um otimismo incansável. Os anos passaram, Fernando, eu cheguei à faculdade, me formei, e segui, constantemente, minha mal-vocacionada carreira de crítico de província. Durante todo esse tempo, vivi a ilusão de escrever sobre O Encontro Marcado, de defender a tese de que é o único romance de formação (Bildungsroman, como diriam os alemães) da literatura brasileira. Desisti. Acabei me convencendo de que certas obras e determinados personagens não merecem o engessamento, a paralisia, a falta de paixão e comprometimentos que a academia exige de seus cúmplices. Seria uma injustiça contigo, com a vida de um Eduardo Marciano angustiado diante do destino irrevogável que buscava a cada página, juntamente com seus amigos Mauro e Hugo, seria uma injustiça para com a poesia indesculpavelmente melancólica que cerca a existência tumultuada de personagens perdidos, desolados diante da agonia impenetrável das palavras.

            Na verdade, nunca fui capaz de escrever uma crítica que fosse a qualquer um de teus livros. Talvez porque, com o tempo, apesar de nunca termos nos encontrado, acabei reconhecendo em ti o amigo que não soube. E é sempre constrangedor criticar os amigos. Invadir sua vida, devassar suas hipotéticas intenções, analisá-las, discuti-las e acabar confundindo-se, para sempre, com a sua própria voz. Às vezes, é preciso compreender que algumas obras nos tomam para além de seus limites estéticos. Às vezes, o crítico precisa reconhecer que certas obras só existem, só passam a fazer sentido e só se justificam diante de seu desejo de compreensão e entendimento, quando ocupam, definitivamente, o espaço da afetividade. Mas aí, então, é tarde demais para a crítica. Como sucede a todas as coisas que se precipitam no abismo insondável do afeto, fica o sentimento frustrante da completa ausência das palavras. Impossível racionalizar aquilo que primeiro se sentiu, porque o espaço da afetividade é, também, o lugar inalienável de toda paixão. E é uma pena que, tanto tempo depois, só possa escrever sobre sua perda, seu desaparecimento, sua voz perdida, que, sei, só poderá ser reencontrada nesse teu jogo de enganar, que dissimula vida e obra, e que alguns acreditam não ser mais do que literatura.

            Mesmo agora, sinto que toda palavra é insuficiente, todo gesto é um gesto para nada, toda tristeza é uma contrariedade que se pega em nós. E já não posso disser, cessada a voz, calada a voz, diluída a voz na estranha sensação de um injusto abandono. Talvez fosse o caso de dizer, como Maiakovski à Iessiênin que você, meu amigo, também subiu, entremeado as estrelas. Mas sou um cético, e não fosse esse ceticismo de gauche, esses sentimentos desajustados, eu quase que desejaria, sinceramente, que houvesse algum lugar para além dessa vida que se gasta diariamente, numa corrida incessante para a morte, e que, lá, nesse lugar que não passa de uma hipótese que sequer consigo conceber, num banco de praça que dá para uma planície imensa, você reencontre os amigos - Hélio, Oto, Paulo - que, há muitos anos, também te deixaram, e possa sorrir sem queixas e dizer que as coisas, por aqui, estavam tão desertas sem eles, que resolveu arrumar as coisas, fechar as malas, adiantar sua partida. Talvez você pudesse, quem sabe, admirando o sorriso tímido do Oto, a expressão fraterna de Paulo e a explosão vital de Hélio, confirmar sua mais obsessiva de todas as idéias fixas: a de que nascemos homens para, com sorte, morrermos meninos. Mas sou um cético, meu amigo, e só posso pensar que é hora de começar a viver com o peso da tua ausência, que já dói em algum lugar indefinível de mim.

Que a eternidade lhe seja leve!

Abraços sinceros do

Márcio

 Escrito por Márcio Scheel às 23h49
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  As Palavras Rasgadas de Poesia

13.03

Não vai entender. Vai abrir a garrafa térmica e dizer que o café está horrível. Tem palavras frias na ponta da língua. Olhos negros, lábios rasgados pelo bisturi de Deus. Vai fumar um cigarro atrás do outro e me deixar sozinho vendo TV até a madrugada. Não vai me mandar embora. Vai me deixar sozinho na sala, com um bicho preto roendo minhas fibras.

 

25.04

Zonzo de banzo de um amor que esqueci na calçada. Onde estarei, meu amor, quando a chuva gritar meu nome e a tempestade rasgar as páginas do poema que ainda não escrevi.

 

11.05

Quero beijar boca de Deus nos lábios de uma mulher da vida.

 

19.01

Riscos de adagas na pele da face. Palavras são lâminas.

 

Estes são alguns dos poemas que compõem o livro Cinemitologias (2002), do poeta, escritor, jornalista e amigo querido Ademir Assunção. Que dizer de um livro que nos toma de assalto, de repente, que nos vampiriza e rouba, talvez de forma irremediável, nossa alma suja e gasta pelo vazio absoluto em que a palavra poética parece ter se precipitado, roída pelo uso, condenada para sempre à voz impostora de tantos poetas de gabinete? É isso mesmo: aquela profecia prefigurada por Drummond no poema Política Literária parece ter se confirmado. Hoje em dia, quase que só há poetas oficiais. E a poesia acaba refém de uma linguagem protocolar, insensível, oficiosa e burocrática, que mente fingindo se expressar. Quebrar esse cerco significa impor à linguagem um delírio ritualístico, reinventar o mito, construir uma poesia que, como sugeriram os surrealistas, ponha abaixo a realidade e adentre o mundo dos sonhos. Cinemitologias concebe em si as duas utopias. Mas ao invés de adentrar o mundo dos sonhos com a licenciosidade que uma certa tradição surrealista acabou criando, Ademir Assunção prefere o caminho mais audacioso: arrebentando as portas do sonho e arruinando para sempre a realidade, que se desespera e perturbada diante da ressurreição e da insurreição do mito. Cinemitologias não nos desafia apenas a partilhar de sua linguagem viva e pulsante, de sua liberdade extremada, que é quase um grito de apelo, uma tentativa agônica, e às vezes frustrada, de se fazer ouvir. Antes de tudo, ele exige que, feito o poeta, nós também sejamos capazes de pactuar com sua força essencial, com seu frágil e, ao mesmo tempo violento, centro de gravidade: a vida no mais puro estado de loucura criadora. A loucura de Hölderlin, que foi a mesma loucura que levou Rimbaud às Iluminações e a Uma Temporada no Inferno, que guiou Láutreamont pelas mãos na perdição poética dos Cânticos de Maldoror, que também foi a loucura sensual e cruel de Baudelaire em seu Spleen de Paris: a loucura que excita a linguagem e a leva a um transe constante, a uma espécie de cio poético, que luta contra o tédio e o vazio que nos toma quando o mundo não passa de uma máquina ilusoriamente perfeita, mesmo com suas engrenagens enrustidas e seu caótico funcionamento, e quando nossos gestos se confundem com as repostas programadas dos autômatos que constroem a velha e inestimável ordem social, política e econômica. Os poemas em prosa de Cinemitologias são feitos de ruas impossíveis, de dragões, centauros, serpentes, mulheres perdidas, morcegos com asas de cristal, abandono e revelação. Cada palavra nos permite entrever sua matéria volátil, seu delírio visual, sua rejeição absoluta aos velhos ídolos de barro. A poesia de Cinemitologias nos redime de nossa falta mesma de saídas. É sempre uma experiência gratificante poder se encontrar nos poemas de um dos últimos poetas extra-oficiais que conheci.

 

P.S 1 – Estas são as primeiras impressões que a leitura de Cinemitologias me deixou. E, como diria Oscar Wilde, só um idiota não acredita em primeiras impressões.

P.S 2 – Espero que o Pinduca não se importe de eu lançar mão de alguns dos poemas do seu livro aqui.

 



 Escrito por Márcio Scheel às 03h14
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  Depois do Último Atentado.

qualquer dia, de repente,

a gente acaba se encontrando,

numa dessas esquinas perturbadas

de um poema angustiado.

(como aquele do Iessiênin

a um Maiakovski desesperado)

e só então você vai ver,

que ainda arrebento o silêncio

(feito essas janelas estilhaçadas

depois do último atentado)

e ao invés de cortar os pulsos

e estragar as paredes do motel,

te mando um cartão-postal

de um lugar qualquer,

só pra dizer que, por aqui,

as coisas continuam indo mal.

 



 Escrito por Márcio Scheel às 02h59
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